quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Ritalina - um mal não necessário na escola



Não é raro encontrarmos crianças encaminhadas para atendimento clínico com indicação da escola. Muitas delas já vem com o diagnóstico: hiperativa, disléxica, déficit de atenção (DDA) e coisas do gênero...
Os pais também já não questionam, aliás, algumas crianças ainda perturbam em casa. E quem quer assumir uma responsabilidade frente as atitudes "anormais" da criança? Nesses casos sobra para a própria criança! Os professores já rotularam, os pais não tem tempo para se preocuparem com essas queixas comportamentais. Então, melhor mesmo é procurar um médico, um especialista que confirme a "deficiência" da criança. Que confirme, porque já estão com a certeza de um problema na criança. E cá entre nós, já não aguentam mais!
E lá no médico... em uma breve entrevista com os pais (que vão falar dos problemas percebidos na criança, e não de suas omissões), recebem o tão esperado laudo. Seu filho é hiperativo ou disléxico, ou DDA, etc... não importa! O diagnóstico foi dado. O destino da criança foi selado. E agora? Calma... ninguém sai de um consultório médico sem receita médica. Resultado, a tal da Ritalina todo dia... para acalmar a fera, ou melhor "ferinha". Pena que não mordem, mas era o que deviam fazer as crianças que recebem esses medicamentos.
Nenhum exame foi feito, nenhum resultado científico foi encontrado. Não existem exames que comprovem dislexia, hiperatividade e DDA.
Já se ouviu falar em estudos sobre esses transtornos, mas na literatura não tem comprovação científica que mostre por A+B que as dificudades escolares são decorrentes de disfunções. As professoras Cecília Azevedo Lima Collares e Maria Aparecida Affonso Moysés são duas críticas ferrenhas contra medicalização diante dos problemas de aprendizagem. Um texto muito bom das professoras é A Transformação do Espaço Pedagógico em Espaço Clínico (A Patologização da Educação) que sugiro à todos a leitura.
Sou apenas uma psicóloga iniciante nessa luta. Crianças que já foram medicadas continuam apresentando problemas. Isso assusta. A Ritalina é o medicamento mais conhecido pelos médicos, professores e pais. A criança dopada e rotulada já não tem auto-estima, confiança em si mesma, e toda dificuldade decorrente vai se justificando pela falta de responsabilidade de alguns educadores e pais, que não dispõe de tempo para trabalhar com a diversidade de saberes e de pessoas. Já ouviram falar em cama de Procusto? Que fique para reflexão...


Janaína Lopes

6 comentários:

Simone disse...

oi Janaína! achei ótimo esse seu texto. meu filho tem autismo e claro que as situações são diferentes, mas a lógica para reflexão é a mesma. Ele é um menino agitado, com paciência um pouco curta, que não se concentra muito bem e toda a vez que vamos ao médico (vamos regularmente pq ele toma medicação para epilepsia) sempre saímos do consultório com uma receita: ritalina, concerta...dessa ultima vez fluoxetina. Mas sou categórica, tenho uma conversa bem clara na escola e terapeutas, falo com os profissionais que o atendem e questiono se essa "agitação" atrapalha ou é controlável . Todas as vezes a resposta é a mesma: "é possivel controlar, ele reclama, se agita, mas não atrapalha o rendimento!" Pq então eu vou dar mais medicação para ele?! Acho muito importante a avaliação de todos os profissionais que trabalham com a criança para a partir daí tomar alguma decisão! abraços

Anônimo disse...

ah! realmente eu sou uma péssima mãe, e para controlar as minhas ferinhas (adorei o termo, quanta consideração com as crianças e rspeito heim!!!!) dou ritalina pra eles.... e aí doutora, então me dá o óleo de lorenzo para o tdah dos meus filhos...vc acha que só a escola é culpada? os pais?
me poupe né...
vcs adoram criticar, mas ajudar?
fora que a doutora maria ap. moysés tá ganhando muito fama ridicularizando as crianças..]
vamos ver onde isso vai dar...
ditado da minha ávó

MUIT AJUDA QUEM NÃO ATRAPALHA!!!!

gonzalcg disse...

Prezada Janaína,

Eu gostei muito de teu artigo, que fala claramente como são as coisas.

Eu fui vítima da medicação psiquiátrica (receitada por psiquiatras) na adolescência e, depois, com 19 anos, mas consegui me desintoxicar, sobreviver e levar uma boa vida.

A premissa fundamental deve sempre ser que nossos filhos e nossos alunos são seres humanos e não coisas que podemos manipular e usar para o nosso benefício.

É muito fácil, tanto em casa como na escola, dopar uma criança para que não perturbe, mas é imoral.

A moeda tem duas faces: se a criança tem uma relação conflitiva com a escola, então devemos analisar o que está acontecendo com a criança e com a escola.

Por isso, com relação a essa postagem anônima que se auto-rotula de péssima mãe, eu diria: procura uma boa psicóloga para vc e, talvez, também para o teu marido.

Carlos

Mercado Pedagógico disse...

Não gostei nenhum pouco do texto. É tão simples entender que pessoas com transtorno jamais serão ''normais''. E é mais simples ainda de entender que com Ritalina tá ruin, sem ela bem pior. Querida médica, tenha mais sencibilidade para entender e se colocar na pele de quem vive esse problema e procura uma saida e algo que amenize seus sofrimentos, nem que seja 10%. Tenho 24 anos e tenho ou sou TDAH e acho o uso da Ritalina algo extremamente necessário, sem ela não poderia levar uma vida ''normal'' como a senhora e se formar, por exemplo. Sem Ritalina sou incapaz de sequer estudar coisas que me são obrigatórias mas não interessantes.

Realmente apesar de formada e ter especialização, aparenta não entender nada do assunto, pelo menos não num sentido prático.

Pessoas que querem dar Ritalina aos seus filho deem, porque se com Ritalina é ruin sem ela é muito pior. Tenho o transtorno e tenho propriedade para afirmar, vivo o que falo, não prendi em livros.

Conceição Dias disse...

Prezada Janaína, achei seu texto interessante. Contudo, preocupo-me quando vejo os colegas da psicologia com uma postura tão radical quanto ao uso de psicofármacos. Sabemos que o TDAH e a Depressão são os transtornos mais bem estudados que existem. Comprovadamente apresentam um deficiência na produção química do cérebro. Isto significa que são doenças. Se são doenças precisam de medicação. Não sei se vc atua na área. Porque se atua, deve saber o quanto é sofrido para uma criança com TDAH que estuda, estuda e não alcança o resultado esperado com seu esforço. Vc deve ter conhecimento também sobre a dor de uma mãe que passa pela depressão pós parto ou de uma pessoa quando perde um ente querido em situações muito agressivas e repentinas. Será que estas pessoas não devem ser tratadas? Será que é melhor deixarmos as crianças, adolescentes, adultos sofrerem com o TDAH quando sabemos que existe um tratamento efetivo? Fala-se muito da epidemia na precrição de psicofármacos. Vc sabia que existem mais 800.0000 pessoas com o TDAH no Brasil e que destas menos de 200.000 têm diagnóstico e fazem tratamento e destas nem a metade dá continuidade ao tratamento? Como pode have uma prescrição excessiva de medicação com estes dados? O que vc diz do crescente número de suicídios entre crianças e adolescentes em quadros depressivos? O que pode ser falado sobre o crescente número de jovens usando maconha para conter a agitação e melhorar a concentração? São estudos científicos. Não podem ser ignorados. Cada caso de ve ser analisado com cuidado. Não podemos generalizar.
Devemos lembrar dos casos que estão na mídia o tempo todo e que representam quadros psiquátricos graves. Vc já foi a uma escola púlica e observou a inclusão de alunos com necessidades especiais? Pois bem, hoje as escolas são OBRIGADAS a recebem todo aluno com a deficiência que ele apresentar. Vc já viu quantos casos de autistas,crianças com sintomas psicóticos outras com sintomas e atitudes psicopatas, estão dentro da escola? Como vc reagiria diante de um ente querido seu sendo atacado e até morto por um adolescente com TDAH com comorbidade com Transtorno Bipolar e sem tratamento porque a psicóloga dele(a) é contra medicação, porque tudo agora é TDAH, Bipolar e Depressão?
Acho que devemos ter muito cuidado com nossas opiniões e com a exposição delas. Somos da área da saúde. Devemos respeitar nossos colegas: médicos, TO, fono, nutricionistas, psicólogos e etc. Não podemos generalizar e ao mesmo reduzir as coisas em conceitos tão simples.
Gostaria de sugerir a vc e a todos os que lerem a estes comentários a leitura dos livros: Mentes Inquietas, Mentes Perigosas, Mentes Insaciáveis da Ana Beatriz.
Peço que me perdoe se minhas colocações não apoiam as suas pontuações.
Dra Maria da Conceição Dias
Psicóloga Clínica e Psicopedagoga
Especialista em Psicologia Clínica pelo CRPMG - Atuando na área Clínica e Educacional há 22 anos.

Carlos disse...

Primeiro quero responder a "Mercado Pedagógico":
Como eu disse, eu fui vítima da medicação psiquiátrica. Naquela época, eu falava igual a vc: que a medicação era necessária, que diminuía o meu sofrimento, que me fazia bem, etc. No meio da confusão que havia na minha cabeça, decidi me desintoxicar e começar o tratamento psicológico. Depois da desintoxicação e do tratamento psicoanalítico cai na real e vi o mal que me fazia o medicamento e com estava acabando com minha vida. Os sintomas da abstinência foram terríveis, um sofrimento inimaginável. Por isso entendo vc: quando tentar parar com as anfetaminas deve cair num desespero de "querer tirar a pele do corpo".

Prezada Conceição Dias: gostaria de usar o teu texto nas minhas aulas, para gerar debate, pois vc sintetiza uma posição bastante difundida.

Recomendo visitar www.cchr.org e ler a obra de Thomas Szasz, uma figura importante da anti psiquiatria.